Bruxelas, 22 de dezembro de 2025 — A União Europeia (UE) enfrenta um momento de tensão interna e pressão externa em torno de duas questões económicas e geopolíticas sensíveis: o uso de ativos russos congelados em apoio à Ucrânia e uma retaliação tarifária chinesa contra produtos europeus. Estas disputas estão a expor diferenças profundas entre Estados-membros como Itália, França e Alemanha, e complicam a estratégia coletiva da UE face à Rússia e à crescente competição com Pequim.
Divisão interna sobre ativos russos congelados
Na cimeira dos líderes da UE, realizada recentemente em Bruxelas, a proposta de usar ativos russos congelados — cerca de 210 mil milhões de euros — como garantia para um empréstimo de apoio à Ucrânia encontrou forte resistência interna. Países como Bélgica e Hungria manifestaram preocupação com implicações legais e financeiras, enquanto líderes alemães e outros apoiaram parcialmente a ideia. No entanto, a exigência de unanimidade para avançar bloqueou o uso imediato desses fundos. Em vez disso, os Estados-membros acordaram um empréstimo de 90 mil milhões de euros através de dívida conjunta para financiar assistência à Ucrânia até 2027, deixando os ativos congelados apenas como “potencial garantia future”. SWI swissinfo.ch+1
O impasse político aumentou fricções, com Alemanha e França a tentarem conciliar interesses, mas também a enfrentar críticas internas por não conseguirem alinhar um plano comum. Itália, juntamente com outros países de leste e centro-europeus, demonstrou cautela sobre o uso de fundos congelados, citando riscos políticos e legais. Le Monde.fr
Críticas de Putin e repercussões diplomáticas
O presidente russo Vladimir Putin aproveitou a divergência na UE para criticar as decisões europeias como “roubo” e afirmou que os ativos congelados terão de ser devolvidos à Rússia no futuro, caso os processos legais assim o determinem. O tom das declarações sublinha como a crise interna na UE pode ser explorada diplomaticamente por Moscovo para enfraquecer a coesão ocidental. Diário de Notícias
Tensão comercial com a China
Ao mesmo tempo, as relações económicas da UE com a China também deterioraram nas últimas semanas. Pequim anunciou tarifas provisórias de até 42,7% sobre produtos lácteos europeus, incluindo leite, queijo e creme, como resposta a medidas de defesa comercial da UE sobre veículos eléctricos e outros sectores. A Comissão Europeia qualificou estas tarifas como injustificadas e prometeu agir em defesa da indústria agrícola europeia. AP News+1
A imposição destes direitos aduaneiros agravou as preocupações em países com exportações agrícolas significativas para a China, como a França e Itália, que veem as tarifas como uma ameaça aos seus sectores tradicionais. Em paralelo, reduções de tarifas sobre produtos como carne suína foram anunciadas em outras frentes de negociação, mas não compensam totalmente as retaliações sobre produtos lácteos. Reuters
Impacto político e económico
Este duplo choque — fricção interna sobre políticas de sanções e retaliação externa da China — destacou uma crise de coordenação na UE, questionando a capacidade do bloco de manter uma posição unificada em matéria de política económica e geopolítica. As divergências refletem:
- Perspectivas distintas sobre o papel da UE na guerra na Ucrânia e o uso de instrumentos financeiros pouco convencionais.
- Diferentes exposições económicas dos Estados-membros aos mercados globais, em especial aos chineses.
- Pressões crescentes de sectores domésticos (como agricultura e automóvel) que influenciam decisões políticas. SWI swissinfo.ch
Analistas consideram que estas tensões poderão comprometer a resposta europeia coordenada a desafios estratégicos, dando sinais de que a UE terá de reforçar os mecanismos de consenso e aprofundar a integração em matéria de política comercial e de segurança económica.

