Um novo estudo descreve que algumas bactérias conseguem sobreviver ao tratamento com antibióticos através de dois estados biológicos distintos de “paragem de crescimento”, ajudando a explicar por que razão certas infeções voltam mesmo quando não há resistência genética aos fármacos. phys.org+1
O problema: sobreviver sem ser “resistente”
Quando um antibiótico funciona, espera-se que elimine as bactérias que estão a causar a infeção. No entanto, em muitos casos, uma pequena fração de células sobrevive temporariamente, volta a multiplicar-se após o fim do tratamento e pode provocar recaídas. Este fenómeno é conhecido como persistência aos antibióticos (diferente de resistência, que envolve alterações genéticas herdáveis). phys.org
Durante anos, a explicação dominante para a persistência foi a ideia de que algumas bactérias “adormecem” — entram num estado de dormência e ficam menos vulneráveis a antibióticos que atacam processos associados ao crescimento. O novo trabalho sugere que esta explicação é incompleta. phys.org+1
O que o estudo encontrou: dois estados de paragem de crescimento
A equipa liderada por Nathalie Balaban (Universidade Hebraica de Jerusalém) descreve dois “arquétipos” de paragem de crescimento que podem originar sobrevivência sob antibióticos: phys.org+1
1) Paragem regulada (um “desligamento” protetor)
- É um estado controlado e regulado, semelhante ao que acontece em condições de fome/escassez.
- A célula reduz atividade e crescimento de forma organizada, o que pode protegê-la de antibióticos direcionados a células ativas. phys.org+1
2) Paragem “disruptiva” (um desligamento desregulado)
- É um estado malfuncionante/desregulado: a bactéria não está apenas “a dormir”, mas entra numa espécie de colapso fisiológico.
- Este modo apresenta vulnerabilidades específicas, com destaque para problemas na estabilidade da membrana celular (um ponto potencialmente explorável por terapias). phys.org+1
Porque isto importa: resolve contradições e muda a estratégia terapêutica
A persistência tem sido um tema confuso porque estudos diferentes, usando condições e medições diferentes, reportavam resultados aparentemente contraditórios sobre “como” as bactérias persistem. Ao mostrar que a sobrevivência pode nascer de dois estados biologicamente distintos, o trabalho oferece uma explicação plausível para essas divergências. phys.org+1
O ponto prático é direto: se existem dois tipos de “persistentes”, pode ser necessário mais do que uma abordagem para evitar recaídas. Em vez de procurar “a” solução universal, tratamentos futuros podem ter de ser desenhados para atingir:
- o estado regulado (tipo dormência), e
- o estado disruptivo (com fragilidades como a membrana). phys.org+1
Metodologia e fontes do estudo
A investigação foi divulgada publicamente pela Universidade Hebraica de Jerusalém e publicada na revista Science Advances, descrevendo a distinção entre estes dois estados e defendendo que a diferenciação permite ajustar intervenções de forma mais eficaz contra a persistência. phys.org+2phys.org+2
Limitações e cautelas
- O estudo descreve estados celulares e potenciais fragilidades, mas não significa que exista já um novo tratamento pronto para uso clínico.
- A persistência varia entre espécies bacterianas e condições de infeção; a transposição para contextos clínicos exige validação adicional. phys.org
Impacto para a saúde pública
Num cenário em que a resistência antimicrobiana continua a aumentar, reduzir falhas terapêuticas por persistência é visto como uma peça importante para:
- diminuir recaídas,
- encurtar tratamentos,
- reduzir necessidade de antibióticos adicionais,
- e limitar oportunidades de evolução de resistência.

