Cientistas reconstruíram, pela primeira vez, genomas antigos de herpesvírus humanos a partir de restos arqueológicos com mais de dois mil anos, revelando que estes vírus acompanham a humanidade há milénios e evoluíram em estreita ligação com o genoma humano.
Uma descoberta inédita na virologia e arqueogenética
O estudo, publicado na revista científica Science Advances e divulgado por várias instituições académicas europeias, apresenta os primeiros genomas antigos documentados dos herpesvírus humanos HHV-6A e HHV-6B. Até agora, todo o conhecimento sobre estes vírus baseava-se exclusivamente em amostras modernas.
A investigação demonstra que estes patógenos já circulavam amplamente entre populações humanas na Antiguidade, muito antes da era da medicina moderna, e que a sua história evolutiva está profundamente entrelaçada com a nossa.
Como os genomas antigos foram recuperados
Os investigadores analisaram DNA extraído de dentes e ossos humanos provenientes de sítios arqueológicos europeus. Utilizando técnicas avançadas de sequenciação de DNA antigo, foi possível identificar fragmentos virais preservados no material genético humano.
Em alguns casos, os cientistas encontraram evidências de integração do herpesvírus no genoma humano, um fenómeno raro mas conhecido no HHV-6, em que o vírus se incorpora nos cromossomas e pode ser transmitido de geração em geração.
O que os genomas revelam sobre a evolução do vírus
A comparação entre genomas antigos e modernos mostrou que:
- As principais linhagens do HHV-6A e HHV-6B já estavam diferenciadas há milhares de anos;
- A taxa de mutação destes vírus é relativamente lenta, sugerindo uma relação estável e prolongada com os humanos;
- Algumas variantes antigas estão mais próximas de certas estirpes modernas, ajudando a reconstruir rotas de migração humana e viral.
Estes dados reforçam a ideia de que os herpesvírus não são apenas agentes de doença, mas também companheiros evolutivos de longa duração.
Importância médica e científica
Embora a maioria das infeções por HHV-6 ocorra na infância e seja geralmente benigna, estes vírus estão associados, em casos raros, a complicações neurológicas e imunológicas. Compreender a sua história evolutiva ajuda os cientistas a:
- perceber melhor a adaptação do vírus ao hospedeiro humano;
- identificar fatores genéticos associados à reativação viral;
- melhorar abordagens futuras de diagnóstico e vigilância.
Além disso, o estudo abre caminho para uma nova área de investigação: a virologia paleogenómica, que permite estudar a história dos vírus ao longo do tempo profundo.
Limitações e próximos passos
Os autores sublinham que o número de genomas antigos analisados ainda é reduzido e que mais amostras arqueológicas serão necessárias para confirmar padrões globais. Futuras investigações poderão incluir outros herpesvírus humanos e vírus de diferentes famílias.
Impacto para a ciência
A recuperação de genomas virais antigos representa um marco comparável às grandes descobertas da arqueogenética humana. Ao mostrar que os herpesvírus acompanham a humanidade há milhares de anos, o estudo contribui para uma visão mais ampla da história partilhada entre humanos e microrganismos.

